Çay turco: ritual social que moldou a identidade nacional otomana

E então, apaixonados por história e cultura do chá? Prontos para descobrir como uma simples bebida se tornou o coração pulsante de um império? 🫖✨

Introdução

O çay turco transcendeu sua função básica de bebida para se tornar elemento fundador da identidade nacional otomana, moldando relações sociais, políticas e culturais por séculos. Este pequeno copo de vidro em formato de tulipa carrega consigo tradições milenares que definiram a hospitalidade, a diplomacia e a vida cotidiana de um dos maiores impérios da história. Cada gole conta uma história de conquistas, trocas culturais e resistência, revelando como práticas aparentemente simples podem construir identidades coletivas duradouras. Prepare-se para mergulhar na fascinante jornada de como o çay se tornou a alma da Turquia.

Origem do çay na cultura turca otomana

O çay chegou às terras otomanas no século XVI através das rotas comerciais que conectavam o Império aos mercados asiáticos, especialmente via Geórgia e regiões do Cáucaso. Inicialmente consumido pela elite palatina de Istambul, rapidamente se espalhou pelas classes médias urbanas devido ao seu sabor marcante e propriedades energizantes. A adaptação do chá preto às preferências turcas resultou em métodos únicos de preparo, incluindo o uso do samovar e posteriormente do çaydanlık, criando rituais específicos que diferenciavam o consumo turco das práticas persas e árabes vizinhas.

Evolução do ritual social ao longo dos séculos

Durante os séculos XVII e XVIII, o çay evoluiu de luxo aristocrático para necessidade social, estabelecendo códigos de hospitalidade que permeavam desde casas humildes até palácios imperiais. A prática de servir chá aos visitantes tornou-se obrigatória, desenvolvendo protocolos elaborados que incluíam a ordem de servir, o tempo adequado de infusão e gestos específicos de cortesia. Çayhaneler (casas de chá) emergiram como centros sociais urbanos, onde homens de diferentes classes sociais se reuniam para discutir política, negócios e questões comunitárias, democratizando o acesso à bebida e criando espaços de socialização transclassistas.

Importância na construção da identidade nacional

O çay funcionou como elemento unificador em um império etnicamente diverso, criando práticas compartilhadas que transcendiam diferenças linguísticas e religiosas. Desde os Bálcãs até a Mesopotâmia, o ritual do chá estabeleceu códigos comuns de civilidade e pertencimento, fortalecendo laços identitários otomanos. A bebida tornou-se símbolo de resistência cultural durante períodos de conflito, mantendo tradições mesmo quando outras práticas eram suprimidas, consolidando sua posição como marcador de identidade que sobreviveu à queda do império e continua definindo a turkishness contemporânea.

Contexto histórico do Império Otomano

O Império Otomano emergiu no século XIII como uma pequena beylik na Anatólia, expandindo-se rapidamente para se tornar potência transcontinental que dominava rotas comerciais estratégicas entre Europa, Ásia e África. Durante sua época dourada (séculos XV-XVII), o império controlava territórios desde os Bálcãs até o Golfo Pérsico, criando um mosaico cultural onde tradições locais se mesclavam com práticas imperiais. Neste contexto de diversidade e cosmopolitismo, elementos culturais como o çay ganharam importância especial como fatores de coesão social, conectando súditos de diferentes origens através de rituais compartilhados que reforçavam lealdades ao sultanato.

Expansão territorial e diversidade cultural

As conquistas otomanas incorporaram povos com tradições distintas de bebidas: árabes com café, persas com chá perfumado, e europeus com bebidas alcoólicas e infusões de ervas. Essa diversidade criou um laboratório cultural onde o çay se adaptou e floresceu, absorvendo influências culinárias locais enquanto mantinha características distintamente turcas. A administração imperial inteligentemente permitiu que práticas locais coexistissem com tradições centrais, e o chá emergiu como denominador comum que facilitava integração cultural sem apagar especificidades regionais, tornando-se ponte entre diferentes comunidades do império.

Sistema administrativo e hierarquias sociais

O sistema devshirme e a estrutura burocrática otomana criaram uma sociedade altamente hierarquizada onde rituais de cortesia assumiam importância política crucial. O çay tornou-se ferramenta diplomática interna, com protocolos específicos governando como diferentes classes sociais interagiam durante o consumo. Altos funcionários (vezires) desenvolveram cerimônias elaboradas, enquanto camadas médias adaptaram versões simplificadas, criando um código social compreensível que facilitava mobilidade social e comunicação entre níveis hierárquicos distintos, essencial para o funcionamento de um império tão vasto.

Rotas comerciais e intercâmbio cultural

O controle otomano sobre rotas comerciais cruciais, incluindo a Rota da Seda e conexões mediterrâneas, facilitou não apenas o transporte físico do chá, mas também a troca de conhecimentos sobre seu preparo e consumo. Mercadores otomanos estabeleceram redes comerciais que se estendiam de Constantinopla a Bagdá, Isfahan e além, criando corredores de intercâmbio cultural onde práticas relacionadas ao chá circulavam livremente. Essa conectividade permitiu que inovações regionais no preparo e apresentação do çay fossem rapidamente disseminadas, criando uma cultura do chá genuinamente imperial que incorporava influências de todas as regiões sob domínio otomano.

Rituais e protocolos do çay

Os rituais do çay otomano desenvolveram complexidade sofisticada que refletia valores sociais fundamentais: hospitalidade (misafirperverlik), respeito hierárquico e harmonia comunitária. O protocolo começava com a preparação meticulosa usando çaydanlık de dois andares, onde água fervia na panela inferior enquanto chá forte se concentrava na superior. A cerimônia de servir seguia ordem rigorosa: primeiro aos mais velhos, depois por status social, sempre com a mão direita, acompanhada de curvatura respeitosa. Gestos específicos comunicavam intenções: rechear o copo muito cheio demonstrava generosidade excessiva, meio vazio sugeria pressa ou desrespeito, criando uma linguagem não-verbal rica que governava interações sociais cotidianas.

Preparação tradicional com samovar e çaydanlık

O samovar, introduzido via influências russas e caucasianas, tornou-se centerpiece dos lares otomanos abastados, simbolizando prosperidade e compromisso com a hospitalidade. O çaydanlık de dois andares evoluiu como versão mais prática, permitindo controle preciso da concentração e temperatura. A preparação exigia conhecimento técnico: água da fonte certa, temperatura ideal (90-95°C), tempo de infusão específico (3-5 minutos para concentrado), e proporções exatas entre chá forte (dem) e água quente. Mestres do chá (çayçı) desenvolviam reputações baseadas em sua habilidade de criar infusões perfeitas, e essa expertise era transmitida através de gerações, criando linhagens familiares de conhecimento.

Códigos de hospitalidade e etiqueta social

A hospitalidade turca (misafirperverlik) encontrou no çay sua expressão mais refinada, estabelecendo que recusar chá oferecido constituía ofensa social grave. Protocolos detalhados governavam cada aspecto: o anfitrião deveria oferecer chá imediatamente após a chegada do visitante, preparar pessoalmente ou supervisionar o preparo, servir no mínimo três copos, e nunca permitir que o copo ficasse vazio. Visitantes, por sua vez, deveriam aceitar graciosamente, elogiar o sabor, e demonstrar prazer evidente no consumo. Essas regras criaram código social universal que facilitava interações entre estranhos e reforçava laços comunitários através de gestos padronizados de cortesia.

Significados simbólicos dos utensílios e gestos

Cada elemento do ritual carregava simbolismo profundo: o copo de vidro transparente (ince belli) representava honestidade e abertura, sua forma de tulipa ecoava motivos florais otomanos, e o pires (tabak) protegia as mãos enquanto demonstrava refinamento. O açúcar oferecido em cubos permitia personalização individual, simbolizando respeito pela preferência pessoal dentro da conformidade social. Gestos como mexer o chá no sentido horário traziam boa sorte, beber em pequenos goles demonstrava apreciação, e deixar um pouco no fundo indicava satisfação adequada sem gula. Essa linguagem simbólica criou sistema de comunicação não-verbal que enriquecia interações sociais cotidianas.

Çayhaneler: centros da vida social

As çayhaneler emergiram como instituições sociais fundamentais no tecido urbano otomano, funcionando como extensões semi-públicas do lar onde homens de todas as classes podiam socializar, conduzir negócios e participar de debates comunitários. Localizadas estrategicamente em bazares, perto de mesquitas e em praças centrais, essas casas de chá democratizaram o acesso ao çay e criaram espaços de encontro que transcendiam barreiras socioeconômicas. Proprietários (çayhaneci) desenvolveram reputações baseadas na qualidade do chá, atmosfera acolhedora e capacidade de facilitar conexões sociais, tornando-se figuras respeitadas na comunidade local que mediavam disputas e organizavam atividades coletivas.

Arquitetura e layout dos espaços de convívio

Çayhaneler tradicionais seguiam arquitetura específica que otimizava socialização: salão principal com bancos baixos (sedir) ao longo das paredes, mesas pequenas para facilitar conversação íntima, e área central para circulação. Elementos decorativos incluíam tapetes persas, caligrafia árabe com versículos do Corão, e plantas que criavam atmosfera acolhedora. A disposição circular ou em U incentivava conversação comunitária, enquanto cantos mais reservados permitiam discussões privadas. Ventilação cuidadosa dispersava vapor do chá e fumaça de cachimbos, e iluminação natural complementada por lanternas criava ambiente convidativo tanto durante o dia quanto à noite, estabelecendo padrões arquitetônicos que influenciaram design de espaços sociais turcos.

Público frequentador e dinâmicas sociais

Çayhaneler atraíam diversidade social impressionante: artesãos terminavam jornadas de trabalho compartilhando chá, comerciantes conduziam negociações informais, estudantes debatiam textos, e aposentados encontravam companhia diária. Essa mistura social criava oportunidades únicas de mobilidade e networking, onde jovens artesãos podiam conhecer mercadores estabelecidos, e ideias circulavam entre diferentes camadas da sociedade. Horários específicos atraíam públicos distintos: manhãs para comerciantes discutindo preços, tardes para artesãos relaxando, e noites para jovens socializando, criando ritmos sociais que estruturavam a vida urbana otomana.

Papel na difusão de informações e cultura popular

Antes dos meios de comunicação modernos, çayhaneler funcionavam como centros de informação onde notícias políticas, econômicas e sociais circulavam rapidamente. Viajantes compartilhavam novidades de outras cidades, comerciantes relatavam condições de mercado, e funcionários públicos informalmente discutiam políticas governamentais. Contadores de histórias (meddah) e músicos (âşık) apresentavam entretenimento que preservava cultura oral, enquanto jogos tradicionais como backgammon e xadrez mantinham tradições lúdicas. Essa função cultural transformou çayhaneler em repositórios de memória coletiva e centros de criação cultural popular que rivalizavam com instituições formais de educação.

Diferenças regionais no consumo

O vasto Império Otomano desenvolveu variações regionais distintas no consumo de çay que refletiam influências climáticas, culturais e econômicas locais. Nas províncias balcânicas, tradições eslavas adicionaram mel e especiarias, criando blends aquecedores para invernos rigorosos. Regiões árabes incorporaram cardamomo e água de rosas, mantendo conexões com tradições pré-otomanas. Áreas costeiras do Mar Negro desenvolveram çay mais forte para combater umidade, enquanto regiões desérticas preferiam versões mais diluídas para hidratação. Essas adaptações locais demonstraram flexibilidade cultural otomana e criaram diversidade dentro da unidade, fortalecendo identidades regionais sem comprometer lealdade imperial.

Variações nos Bálcãs: influências eslavas

Províncias balcânicas como Bósnia, Sérvia e Bulgária adaptaram o çay incorporando tradições eslavas de bebidas quentes, resultando em versões adocicadas com mel local, especiarias como cravo e canela, e servindo em copos maiores para combater frios intensos. A influência ortodoxa introduziu consumo de chá durante jejuns religiosos, quando bebidas alcoólicas eram proibidas, consolidando o çay como alternativa espiritual. Çayhaneler balcânicas desenvolveram atmosfera única, combinando hospitalidade turca com cordialidade eslava, criando espaços de convivência inter-étnica que facilitavam integração cultural mesmo durante tensões políticas.

Adaptações no Oriente Médio: fusão com tradições árabes

Nas províncias árabes, especialmente Síria, Iraque e Palestina, o çay otomano fusionou com tradições locais de chá perfumado (shai), resultando em variações aromáticas com rosa, jasmim e cardamomo. A cultura do chá árabe, com suas cerimônias elaboradas e significados poéticos, enriqueceu o ritual turco com elementos líricos e artísticos. Çayhaneler árabes incorporaram música makam, poesia popular e debates literários, criando ambiente cultural mais refinado que influenciou práticas em outras partes do império. A tradição de adicionar açúcar em quantidade generosa (muitas vezes 3-4 cubos) tornou-se característica distintiva que persistiu em regiões árabes mesmo após a dissolução otomana.

Características únicas das regiões caucasianas

O Cáucaso, região de origem de muito do chá consumido no império, desenvolveu tradições híbridas que combinavam métodos georgianos e armênios com protocolos turcos. Samovares caucasianos, maiores e mais ornamentados que versões turcas, tornaram-se símbolos de status, enquanto o costume de beber chá em pequenos copos de vidro grosso (armudu) criou experiência sensorial única. A tradição caucasiana de acompanhar chá com doces cristalizados, nozes e frutas secas influenciou hábitos otomanos, e casas de chá caucasianas desenvolveram reputação de servir os melhores blends do império, atraindo conhecedores de toda Constantinopla.

Influência na política e diplomacia

O çay transcendeu fronteiras domésticas para se tornar ferramenta diplomática sofisticada na política imperial otomana, sendo utilizado em negociações internacionais, cerimônias de corte e como símbolo de poder imperial. Embaixadores europeus aprenderam que recusar chá oferecido pelo sultão constituía insulto diplomático grave, enquanto a qualidade e apresentação do chá servido comunicavam sutilmente o status do visitante nas hierarquias imperiais. Tratados importantes eram frequentemente selados após cerimônias de chá, e a habilidade de navegar protocolos do çay tornou-se competência essencial para diplomatas, criando uma diplomacia cultural única que diferenciava práticas otomanas de tradições europeias contemporâneas.

Cerimônias de corte e recepções oficiais

No Palácio de Topkapi, cerimônias de chá desenvolveram complexidade cerimonial que rivalizava com protocolos de Versalhes, incluindo ordem específica de servir baseada em hierarquia imperial, utensílios de ouro e prata para dignitários de alto escalão, e rituais que podiam durar horas. O Grande Vizir presidia cerimônias especiais onde cada gesto carregava significado político: a ordem de servir indicava favor imperial, a qualidade do açúcar oferecido sinalizava importância do convidado, e a duração da cerimônia comunicava a seriedade das discussões. Essas práticas criaram protocolo diplomático distintamente otomano que impressionava visitantes estrangeiros e reforçava a sofisticação cultural do império.

Uso em negociações e alianças

Durante negociações comerciais e políticas, o çay funcionava como lubrificante social que facilitava discussões difíceis e criava atmosfera de cordialidade necessária para compromissos. A prática de servir múltiplas rodadas de chá durante negociações permitia pausas estratégicas para reflexão, consultas privadas e reconsideração de posições. Diplomatas otomanos habilmente utilizavam rituais do chá para avaliar sinceridade de parceiros, observando como eles se comportavam durante cerimônias, e para criar senso de obrigação mútua através da hospitalidade compartilhada. Tratados comerciais com Veneza, Genova e posteriormente potências europeias frequentemente incluíam cláusulas sobre hospitalidade adequada, codificando a importância do chá nas relações internacionais.

Simbolismo de poder e prestígio imperial

A capacidade otomana de importar, processar e servir chá de alta qualidade demonstrava poder econômico e sofisticação cultural que impressionava rivais e aliados. Samovares imperiais, crafted by master artisans e decorados com joias, tornaram-se símbolos de poder que competiam com coroas e cetros europeus. A tradição de presentear conjuntos de chá elaborados a dignitários estrangeiros criou diplomacia cultural que espalhou influência otomana através de objetos materiais, e a reputação de hospitalidade turca, centrada no çay, tornou-se soft power que melhorava a imagem imperial internacionalmente, demonstrando que civilização otomana rivalizava com qualquer corte europeia em refinamento.

Papel das mulheres na cultura do çay

Embora çayhaneler fossem espaços predominantemente masculinos, mulheres otomanas desenvolveram papel central na cultura do çay através do domínio doméstico e social, controlando preparação, servir e educação sobre protocolos em ambiente familiar. Mulheres de elite organizavam “çay partileri” (festas de chá) elaboradas que funcionavam como redes sociais paralelas onde questões familiares, arranjos matrimoniais e política doméstica eram negociadas. A responsabilidade feminina pela hospitalidade familiar fez das mulheres guardiãs das tradições do çay, transmitindo conhecimento técnico e cultural através de gerações, e criando espaços de sociabilidade feminina que, embora privados, exerciam influência significativa na vida social otomana.

Tradições domésticas e transmissão de conhecimento

Mulheres otomanas desenvolveram expertise sofisticada na arte do çay, dominando técnicas que incluíam seleção de folhas, controle preciso de temperatura, timing de infusão, e apresentação estética que refletia status familiar. Mães ensinavam filhas não apenas aspectos técnicos, mas também significados sociais: como ler humor dos convidados através de sua maneira de beber, quando oferecer chá adicional, e como usar hospitalidade para construir alliances familiares. Receitas secretas para blends especiais eram patrimônio familiar guardado ciosamente, e a reputação de uma família dependia parcialmente da qualidade do chá servido aos visitantes, elevando o preparo de çay ao status de arte feminina essencial.

Encontros sociais femininos e redes de influência

“Çay günleri” (dias de chá) semanais criaram instituições sociais paralelas onde mulheres de elite se reuniam para discussões que, embora aparentemente domésticas, influenciavam decisões políticas e econômicas através de seus maridos. Essas reuniões seguiam protocolos elaborados: anfitriã mais velha ou de maior status presidia, conversação seguia tópicos apropriados (família, caridade, casamentos), e informações circulavam sobre oportunidades matrimoniais, investimentos e questões comunitárias. A influência dessas redes era considerável: boicotes femininos a determinados comerciantes podiam arruinar negócios, enquanto aprovação coletiva facilitava ascensão social de famílias emergentes.

Rituais relacionados a casamentos e celebrações

Cerimônias de casamento otomanas incorporaram o çay em múltiplos momentos rituais: durante negociações de dote (çeyiz müzakeresi), onde famílias se reuniam para discussões formais; em “kına gecesi” (noite de henna), onde noiva servia chá às convidadas como demonstração de competência doméstica; e durante “gelin çayı” (chá da noiva), quando nova esposa oferecia chá à família do marido para demonstrar integração familiar. Utensílios de chá de alta qualidade faziam parte essencial do dote, e a habilidade da noiva em preparar çay perfeito era critério de avaliação de sua adequação matrimonial, consolidando papel central da bebida nos ritos de passagem femininos otomanos.

Transformações durante o período de reformas

As reformas do Tanzimat (1839-1876) e posteriormente as mudanças da era dos Jovens Turcos alteraram significativamente a cultura do çay, introduzindo influências europeias que criaram híbridos culturais únicos. A modernização do império incluiu importação de porcelanas europeias, adoção de horários de chá inspirados no afternoon tea britânico, e gradual entrada de mulheres em espaços semi-públicos de consumo. Simultaneamente, intelectuais otomanos utilizaram çayhaneler como centros de debate sobre reformas, criando síntese entre tradições islâmicas e ideias europeias que se refletiu em mudanças nos rituais de consumo, mantendo essência turca enquanto incorporava elementos modernizadores que prepararam transição para a república.

Influências europeias e modernização dos hábitos

A crescente interação com diplomatas e comerciantes europeus introduziu elementos como mesas altas, cadeiras individuais, e serviços de porcelana que gradualmente substituíram bancos baixos e copos tradicionais em estabelecimentos mais sofisticados. A influência do afternoon tea britânico criou “beş çayı” (chá das cinco), adaptação turca que combinava pontualidade europeia com hospitalidade otomana. Açúcar refinado importado gradualmente substituiu versões locais menos processadas, enquanto biscoitos e pequenos salgados começaram a acompanhar o chá, alterando a experiência sensorial sem comprometer tradições fundamentais de cortesia e sociabilidade.

Mudanças arquitetônicas em çayhaneler urbanas

Çayhaneler nas grandes cidades otomanas adotaram elementos arquitetônicos europeus: janelas maiores para mais luz natural, divisões internas para criar ambientes diferenciados, e decoração que combinava motivos tradicionais com influências art nouveau e art déco. A introdução de jornais e revistas criou cantos de leitura, enquanto mesas individuais permitiam maior privacidade. Sistemas de ventilação melhorados e iluminação elétrica (onde disponível) modernizaram ambiente, mas proprietários cuidadosamente mantiveram elementos tradicionais como tapetes, caligrafia e samovares para preservar atmosfera autenticamente turca que atraía clientela local.

Debates intelectuais sobre identidade nacional

Çayhaneler tornaram-se palcos para discussões apaixonadas sobre o futuro do império, onde intelectuais dos Jovens Turcos debatiam questões de modernização versus tradição, islamismo versus secularismo, e identidade otomana versus nacionalismo turco. O çay serviu como denominador comum que unia participantes desses debates, independentemente de suas posições políticas, criando ambiente onde divergências ideológicas podiam coexistir. Esses debates prepararam terreno intelectual para transformações subsequentes, e a continuidade da tradição do chá através desses períodos turbulentos demonstrou sua importância como elemento estabilizador da identidade cultural turca em formação.

Legado na Turquia moderna

A transição do Império Otomano para a República Turca preservou e mesmo intensificou a importância cultural do çay, que se tornou símbolo de continuidade histórica em meio a mudanças radicais de secularização e modernização. Mustafa Kemal Atatürk, embora promovesse ruptura com tradições otomanas, reconheceu o valor do çay como elemento unificador nacional e incentivou sua produção doméstica na região do Mar Negro. A década de 1930 viu estabelecimento de plantações de chá turcas que reduziram dependência de importações, criando indústria nacional que reforçou autonomia cultural. Hoje, a Turquia é um dos maiores consumidores de chá per capita no mundo, mantendo rituais que conectam cidadãos modernos às suas raízes otomanas.

Continuidade cultural na República Turca

A revolução kemalista, apesar de sua agenda secularizante e modernizadora, preservou conscientemente tradições do çay como elementos de identidade nacional turca que transcendiam divisões religiosas e políticas. Çayhaneler adaptaram-se aos novos tempos mantendo funções sociais essenciais: espaços de socialização masculina, centros de informação comunitária, e locais de lazer popular. A introdução do alfabeto latino não alterou terminologia tradicional do chá, e práticas de hospitalidade permaneceram inalteradas, demonstrando como aspectos culturais profundos resistem a mudanças políticas superficiais quando estão genuinamente integrados à experiência coletiva.

Adaptações contemporâneas dos rituais tradicionais

Turquia moderna desenvolveu adaptações criativas dos rituais tradicionais: çay gardens em shoppings centers mantêm socialização tradicional em ambientes contemporâneos, máquinas automáticas de chá (çay makinesi) democratizaram acesso em escritórios e espaços públicos, e aplicativos de delivery permitem manter hospitalidade mesmo em apartamentos urbanos pequenos. Famílias turcas contemporâneas preservam çaydanlık doméstico mesmo quando possuem tecnologia moderna, e horários familiares de chá continuam estruturando rotinas domésticas. Essas adaptações demonstram vitalidade cultural que permite evolução sem perda de essência.

Influência global da cultura turca do chá

A diáspora turca espalhou tradições do çay globalmente, criando çayhaneler em Londres, Berlin, Nova York e Sydney que servem como centros culturais para comunidades turcas expatriadas. Turistas que visitam a Turquia frequentemente adotam elementos da cultura do chá, importando çaydanlık e copos tradicionais, enquanto restaurantes turcos internacionais introduzem rituais do çay para audiências globais. A crescente popularidade de chás turcos em mercados internacionais, especialmente blends com maçã e especiarias, demonstra como tradições culturais específicas podem encontrar apelo universal quando autenticamente apresentadas.

Conclusão

O çay turco provou ser muito mais que uma simples bebida: tornou-se elemento fundador da identidade nacional otomana que sobreviveu à queda de impérios, mudanças políticas radicais e modernização acelerada. Seus rituais criaram linguagem social comum que uniu povos diversos, suas instituições democratizaram espaços de socialização, e sua simbologia ofereceu continuidade cultural em tempos de transformação. Cada copo servido hoje carrega consigo séculos de história, tradições de hospitalidade e valores comunitários que continuam definindo o caráter turco. Que possamos aprender com essa rica herança sobre o poder das tradições simples em construir identidades duradouras e criar pontes entre passado e futuro! 🌟☕

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